Insurgente: A Continuação de uma Guerra Anunciada


E chegamos à continuação da série Divergente. O filme Insurgente mostrará a guerra entre a facção erudita, que havia tomado o poder da facção dos abnegados, e um grupo de revoltosos, que inclui divergentes e os sem facção.

Tris, uma divergente 100%. Essa realmente não concorda com ninguém!!!

Tris, uma divergente 100%. Essa realmente não concorda com ninguém!!!

Só para lembrarmos, no futuro, a humanidade havia sido dividida em cinco facções, cada uma com sua função específica: os eruditos, os abnegados, os amigos, os sinceros e os audazes. O poder estava nas mãos dos abnegados, altruístas por excelência, preocupados em ajudar as pessoas, servindo-as como funcionários públicos. Desde já fica claro que os abnegados são a alegoria do regime democrático. Os eruditos são homens de ciência, preocupados em desenvolver as tecnologias. Os sinceros defendem a verdade e as leis. Os amigos defendem a fraternidade entre as pessoas e os audazes são os corajosos que exercem a função de polícia. Os eruditos tomaram o poder dos abnegados usando os audazes, que foram sugestionados por substâncias químicas introjetadas neles pelos eruditos a tomar o poder com violência. Os divergentes são uma pedra no caminho da líder dos eruditos, Jeanine (interpretada por Kate Winslet), pois possuem vontade própria e não podem ser dominados. Nossa protagonista é Tris (interpretada por Shailene Woodley), que é 100% divergente. Há uma caixa deixada pelos antepassados humanos que criaram essas cinco facções, cujo conteúdo explicaria qual seria o melhor rumo que a humanidade deveria tomar. Os antepassados cercaram as cinco facções com um muro intransponível por 200 anos. A caixa tinha cinco lados, com cada lado tendo a marca de uma facção e ela só seria aberta se um divergente conseguisse passar por simulações de computador que espelhavam situações de todas as cinco facções. Na busca pela mensagem da caixa, Jeanine, com seu sonho de um futuro melhor, caçava divergentes para passar pelas simulações que levavam muitos deles à morte. Somente Tris, uma divergente 100%, sobreviveria às cinco simulações. Assim, os eruditos reprimiam com violência a aliança insurgente criada entre os divergentes e os sem-facção e, ao mesmo tempo, buscavam o divergente ideal para fazer as simulações e descobrir o segredo contido na caixa. E a aliança insurgente buscava arregimentar as facções para o seu lado.

Quatro, achacado por um audaz, é o braço direito de Tris e um pouco mais...

Quatro, achacado por um audaz, é o braço direito de Tris e um pouco mais...

Ufa, pode parecer algo enrolado, mas isso é o menos importante, já que esses filmes inspirados em best-sellers adolescentes estão mais preocupados com cenas de ação, tiroteios, pancadarias e efeitos especiais. Esse segundo filme pareceu menos empolgante que o primeiro, onde víamos toda a cosmogonia da coisa, a construção da trama. Nessa sequência, vemos mais as cenas de luta e de ação. De qualquer forma, ainda é inquietante ver os eruditos, os detentores do grande conhecimento científico, como os vilões da história, nos remetendo a uma herança positivista. O elenco também ficou mais restrito às carinhas novas. Ashley Judd, a mãe de Tris, teve apenas uma pequena participação. Kate Winslet estava magnífica mais uma vez, interpretando uma boa vilã. Naomi Watts fez a líder dos sem-facção, sendo também a mãe da paixão de Tris, Quatro (interpretado por Theo James). Ansel Elgort faz o irmão de Tris, Caleb, um erudito que passou para o lado de Jeanine (seria culpa das estrelas?). Coube à Shailene Woodley tomar as rédeas da trama, mas ela ainda está em início de carreira sendo, na minha opinião, um fardo muito grande em carregar todo esse filme nas costas. Creio que um ator medalhão mais velho entre os insurgentes ajudaria um pouco mais a história. Octavia Spencer trabalhou como líder dos abnegados, mas muito pouco.

Jeanine não mede esforços para chegar a seu "mundo perfeito"

Jeanine não mede esforços para chegar a seu "mundo perfeito"

A trama da série Divergente não é algo original, pois a história bebe em várias fontes. A primeira delas é a noção de estado autoritário que reprime totalmente a individualidade das pessoas, sendo o estado nazista talvez um dos melhores exemplos. A divisão da sociedade em facções com funções estritamente definidas remete a esse estado autoritário, presente de certa forma, desde A República, de Platão, passando pelas sociedades de Antigo Regime, indo até as ditaduras com culto à personalidade do século XX. A repulsa à vontade individual fica clara no discurso de Jeanine, que a culpa pela provocação da guerra. Assim, a sociedade de facções é uma “nova sociedade” platônica, onde cada indivíduo cumpre sua função. O discurso de um Estado autoritário que deve reprimir a ambição e vontade humanas também é visto no Leviatã, de Thomas Hobbes, um dos teóricos do absolutismo. Quanto às facções propriamente ditas, já mencionamos que os abnegados são a alegoria da democracia. Quanto aos audazes, fica bem clara a sua posição militarista, altamente sedutora (Tris admirava os audazes desde pequena!), como eram as sociedades fascistas que atraíam a população com seu discurso ultranacionalista e vigoroso no que se tange ao uso de força bruta para resolver situações de crise. Os eruditos, por sua vez, têm também um quê autoritário que remete a uma ideologia positivista, que prega a ideia de que os mais capacitados intelectualmente devem assumir os governos, evitando que pessoas ignorantes do povo assumam altos cargos. Como a democracia possibilita que qualquer pessoa possa subir ao poder, os positivistas têm uma pecha altamente antidemocrática.

Apesar de ser menos interessante que Divergente, Insurgente prende a atenção e é um entretenimento razoável, dando um gancho para a continuação. Mas parece que a história meio que esgotou o fôlego. Nesse quesito, o “meio-irmão” de Divergente, Jogos Vorazes, tem mais força, pois já vai para o quarto filme e tem uma trama mais vibrante. Realmente, o fim de cada filme nos deixa com vontade de ver o próximo. Mas vamos esperar a sequência da série Divergente para podermos avaliar melhor. Por ora, deem uma conferida em Insurgente para não perderem o fio da meada...

Caleb, irmão de Tris, do lado de Jeanine. Culpa das estrelas?

Caleb, irmão de Tris, do lado de Jeanine. Culpa das estrelas?

Carlos Lohse
Consumidor compulsivo de cinema, sua sina de assistir tudo que pode, veio com a versão de Metrópolis de 1984 do Giorgio Moroder, apesar de sua paixão mesmo, ser o cinema mudo. Astrônomo, historiador e professor, agora tem uma nova missão: desmistificar e contribuir para o universo do Abacaxi!
  • Silvia

    Oi Carlos, tudo bem? Pelo que entendi você não leu os livros, né? Então, os Abnegados na verdade não são tão democráticos – sendo esse um dos argumentos usado pela Jeanine no primeiro filme para tira-los do poder. As facções mais democráticas são a Candor/Sinceros e a Amity/Amizade. Sendo a segunda realmente democrática, o que infelizmente, como você mesmo colocou, ficou muito mal representado no filme (Octavia foi um desperdício e sua personagem tem um papel muito mais importante no livro).

    AH! A paixão de Tris pelos Dauntless/Audazes é na verdade pela liberdade que ela percebe neles. Como os abnegados só podem usar cinza, roupas sem forma, cabelos longos e presos em coque (para as mulheres), corte militar para os homens (essa parte ficou totalmente de fora no filme), não podem se olhar no espelho, conversar com os pais, falar alto, correr, entre outras coisas; Tris percebe nos “rebeldes” uma alegria que ela não tem. Essa liberdade de correr, se arriscar e até na vestimenta, são coisas que a estimulam a escolher entre as 3 facções que ela tem aptidão (Não existe essa coisa de 100% no livro, o que é muito melhor) – abnegados, eruditos ou audazes – a escolher os audazes. A autora ainda meio que deixa no ar que é uma escolha genética, afinal a mãe dela nasceu nos Audazes e o pai, nos Eruditos.

    Mas concordo totalmente com você que o filme se importou muito mais com a ação, deixando de fora a parte mais legal, para mim, que é a explicação científica/política da situação. Isso vai complicar bastante para o próximo filme, mas vamos ver o que vem por aí!

    Beijos!

    • Carlos Lohse

      Oi, Silvia. Realmente não li os livros, e só pude me apoiar pelo que vi no filme. A coisa dos abnegados não serem tão democráticos pode dar margem para discussao, mas pensei num quê de democracia para eles, em virtude de se aproximarem de servidores públicos de alguma forma. A acusacao que os eruditos fazem contra os abnegados me pareceu vazia, pelo que vi no filme, pois os eruditos é que são os verdadeiros viloes da coisa (uma alusao muito forte ao positivismo) e a acusacao deles contra os abnegados bem poderia parecer falsa. Ha um exemplo em História. Quando D. Pedro I dissolveu a assembleia constituinte de 1824, ele alegou que os constituintes nao eram liberais, quando na verdade ele estava na bronca com os rumos altamente liberais que a constituicao tomava e que restringiam seu poder de imperador.
      Com relacao aos audazes, esse sentimento de liberdade que Tris sentia era altamente sedutor, assim como era sedutor o discurso de Hitler que exaltava a grandiosidade do povo alemao nos anos dificeis da depressao. Sei la, Silvia, mas tem alguma coisa cocando la no fundo da minha cabeca fazendo uma analogia entre a impetuosidade dos audazes e o discurso darwinista social dos nazistas que falava que somente os mais fortes sobrevivem. E a forma que os audazes foram manipulados pelos eruditos só me faz aumentar tal impressao. A coisa do ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels, que dizia que uma mentira falada mil vezes tornava-se uma verdade. As imagens de Jeanine discursando recorrentemente para convencer as pessoas. Eruditos manipulando coracoes e mentes e audazes fazendo o papel de caes de guarda, depois de devidamente manipulados. Fórmulas há muito vistas….
      Desculpe, mas cometi o terrivel pecado de ser um historiador. E todo historiador é um cara chato. Pensa e fala mais do que deve. De qualquer forma, uma analise mais profunda da saga divergente deve contar tambem com os livros. E aí recaímos no debate sobre Duna no cineclube sci fi de dois anos atras: nem sempre uma imagem vale mais que mil palavras. O uso do audio visual nao pode descartar de todo o uso da palavra escrita….
      Falei pra caramba de novo! Foi Mal! Um beijo! Carlos…

      • Silvia

        Oi Carlos, que bom que você respondeu e não pareceu se incomodar com os meus comentários! =) Acho que assim como você tem dificuldades de separar a História de um filme, eu tenho de separar um livro mesmo quando o filme praticamente ignora o mesmo, risos!

        Então, eu não conheço tanto de positivismo – infelizmente tive uma base fraca em História do Brasil no colégio -

        • Carlos Lohse

          Oi, Silvia. Bom, o nazismo tambem é latente entre os eruditos, sem duvida, sobretudo na propaganda que Jeanine faz em todos os lados. Jeanine faz a vezes de Goebbels, a cabeça pensante e manipuladora nazista. E os eruditos manipulam os audazes, que representam a força bruta. Lembro-me de um filme de propaganda nazista da famosa diretora Leni Riefenstahl, “O Triunfo da Vontade”, onde jovens “brincavam de brigar”, com sorrisos estampados em suas faces (a sensacao de alegria e liberdade de Tris, de pertencer a algo grandioso e vigoroso quando ela estava com os audazes). E depois, os soldados alemães, falando em tom de oração (histeria religiosa) de que pertenciam ao führer (aparecendo a imagem de Hitler) e a Alemanha (aparecendo a bandeira com a cruz suástica). Logo, a ideologia e o nucleo intelectual nazista seriam os eruditos, e a força bruta dos nazistas residiria nos audazes convertidos.
          Já a coisa do positivismo fica por conta de que os seguidores dessa filosofia eram adeptos de uma meritocracia extrema, do tipo, “somos os mais adequados a estar no poder, pois detemos todo o saber científico e nosso governo será o melhor por causa disso, pois ele será isento de ideologias (ah, ah, ah!) e totalmente técnico”. Note que nao ha espaço para democracia aí, pois na democracia, qualquer um da “massa burra e ignorante” poderia chegar a um poder que é melhor administrado por um especialista ou um cientista. Eu lamento que “as pessoas de ciência”, ou seja, os eruditos, sejam vistas dessa forma positivista no filme. Mas, enfim, alguma faccao tinha que ser a vilã. Acabou sendo a faccao mais “nerd”, a mais “estudiosa ou cdf”.
          A estética padronizada dos abnegados só reforça a impressao de servidores públicos que eles têm, como se a padronizacao lembrasse os uniformes de um orgao de estado, ou o estado chines de Mao, no exemplo que voce deu…
          É, Silvia, mais legal do que o CGI ou o “4D” (confesso que ainda nao entendo esse termo para efeitos especiais, pois o 4D, fisicamente falando, consideraria o tempo tambem como uma variável) é, na minha opiniao, detectar as fontes nas quais a história da saga divergente bebe, seja no livro, seja no filme. É a velha tensao entre a paráfrase e a polissemia: para se falar algo novo, você deve repetir antes. Não existe algo 100% original. A originalidade está em como você reconta antigas e conhecidas histórias…
          Estou adorando falar contigo. Dê uma olhadinha nos meus outros artigos e sinta-se livre para comentá-los. Meu email eh: . Beijao! Carlos…

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